Refl exões em Biologia da Conservação volume 3 Marlúcia Bonifácio Martins Organizadora Presidente da República Luís Inácio Lula da Silva Ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação Luciana Barbosa de Oliveira Santos MUSEU PARAENSE EMÍLIO GOELDI Diretor Nilson Gabas Junior Coordenador de Pesquisa e Pós-Graduação João Ubiratan Santos Coordenadora de Comunicação e Extensão Sue Anne Costa Coordenação do Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade e Evolução Rogério Rosa Silva Fernando Carvalho Filho Coordenação do Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais Julia Cohen José Francisco Barrêdo EQUIPE EDITORIAL Editora Executiva Iraneide Silva Editoras Assistentes Angela Botelho Zeneida Britto Editora de Arte Andréa Pinheiro CONSELHO EDITORIAL Dr. Adriano Souza (Universidade Federal Rural da Amazônia) Dr. Alberto Akama (Museu Goeldi) Dra. Andreia Pinto (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia) Dr. Arleu Viana_Júnior (Universidade Federal da Paraíba) Dra. Benedita Barros (Museu Goeldi) Dra. Cláudia Inês Silva (Museu Goeldi) Dra. Favízia Oliveira (Universidade Federal do Ceará) Dra. Gracialda Ferreira (Universidade Federal Rural da Amazônia) Dra. Iracenir Santos (Universidade Federal do Oeste do Pará) Dra. Isabel Vitorino (Universidade Federal do Pará) Dr. José Francisco Bêrredo (Museu Goeldi) Dr. Leonardo Sena (Universidade Federal do Pará) Dra. Lourdes Furtado (Museu Goeldi) Dr. Luciano Montag (Universidade Federal do Pará) Dra. Luttieta Montorano (Embrapa Amazonia Oriental) Dr. Marcelo Tabarelli (Universidade Federal de Pernambuco) Dra. Márcia Mota Maués (Embrapa Amazônia Oriental) Dra. Maria Fabiola Barros (Instituto Tecnológico Vale) Dra. Marilene Brazil (Secretaria de Estado do Meio Ambiente/AC) Dr. Mário A. G. Jardim (Museu Goeldi) Dra. Márlia Coelho-Ferreira (Museu Goeldi) Dr. Pedro Glécio (Museu Goeldi) Dra. Regina Oliveira (Museu Goeldi) Dr. Rony Peterson (Universidade Federal de Sergipe) Dra. Rosana Tidon (Universidade de Brasília) Dra. Rosângela Santa Brígida (Museu Goeldi) Museu Paraense Emílio Goeldi Coleção Adolpho Ducke Refl exões em Biologia da Conservação Marlúcia Bonifácio Martins Organizadora Belém, 2024 volume 3 Produção Editorial Iraneide Silva Angela Botelho Projeto gráfico, editoração eletrônica e capa Andréa Pinheiro Revisão Iraneide Silva Marlúcia Bonifácio Martins Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) R332 Reflexões em Biologia da Conservação / Marlúcia Bonifácio Martins, editora. – Belém: Museu Paraense Emílio Goeldi, 2024. (Coleção Adolpho Ducke; v. 3) 137 p.: il. color. ISBN 978-65-88888-23-0 1. Biologia da Conservação. 2. Ambiente urbano - conservação. 3. Desafios. I. Martins, Marlúcia Bonifácio (ed.). II. Tílulo. III. Série. CDD 333.9516 Bibliotecária Responsável: Zeneida Mello Britto CRB-2ª/1136 © Copyright por/by Museu Paraense Emílio Goeldi, 2024. Todos os direitos reservados. A reprodução não autorizada desta publicação, no todo ou em parte, constitui violação dos direitos autorais (Lei nº 9.610). Apresentação Este terceiro volume do livro Reflexões em Biologia da Conservação demostra a dinâmica da disciplina Biologia da conservação, em termos da diversidade de temas e desafios enfrentados pela sociedade no caminho da sustentabilidade. Da mesma forma que nos volumes anteriores, os temas apresentados são de livre escolha dos discentes, motivados pelas discussões em sala de aula e guiados pelo intuito de discutir com a sociedade aspectos julgados por eles mais relevantes. Os textos são enriquecidos por estudos de casos e revisões bibliográficas que ilustram o tema em discussão, sem a perspectiva de serem exaustivos em relação ao tema abordado. O foco principal é informar e provocar no leitor o pensamento crítico, de modo a motivar sua participação nos debates de interesse. Os 12 capítulos deste volume foram agrupados em três eixos: Ameaças à biodiversidade e ações de mitigação, Os conflitos na relação Homem x Natureza e As vias e alternativas de sustentabilidade na região amazônica. Esperamos que este volume contribua para inspirar ações individuais e coletivas em benefício da conservação da biodiversidade e da qualidade de vida para todos. Marlúcia Bonifácio Martins Museu Paraense Emílio Goeldi Prefácio A Biologia da Conservação é uma disciplina que tem como objetivo estudar os processos evolutivos e ecológicos que afetam a biodiversidade e a conservação de espécies e ecossistemas em todo o mundo. Essa ciência busca entender os impactos das atividades humanas, como a degradação ambiental, a poluição, as mudanças climáticas e a fragmentação de habitat, sobre a biodiversidade e a elaboração de estratégias para a conservação de espécies e ecossistemas ameaçados. Desta forma, a Biologia da Conservação é uma abordagem integrada que une Biologia, Zoologia, Botânica, Ecologia, Genética, Estatística, Economia e Sociologia, para enfrentar os desafios da conservação da biodiversidade no planeta. No entanto, vimos nos últimos anos como esse conhecimento é importante, além da academia. Como, por exemplo, o aumento significativo no desmatamento na Amazônia e outras áreas protegidas nos últimos anos; a deliberação pelos governantes de uma série de medidas e políticas que visam flexibilizar as leis ambientais e reduzir a proteção das áreas naturais. A redução do orçamento de órgãos ambientais e educacionais, responsáveis pela gestão e fiscalização das áreas protegidas e a produção de conhecimento científico. Desde de 1997, a disciplina Biologia da Conservação vem sendo ministrada para os cursos de Pós-Graduação do Museu Paraense Emílio Goeldi; e em 1999 tive o prazer de participar da primeira turma da disciplina Biologia da Conservação para a Pós-Graduação em Zoologia do convênio Universidade Federal do Pará e Museu Paraense Emílio Goeldi, o que influenciou positivamente na minha carreira como pesquisador e conservacionista. Ao longo destes 26 anos, mestrandos e doutorandos participam de dinâmicas e explanações sobre os impactos que as atividades humanas têm na biodiversidade e nos ecossistemas, sendo indagados sobre as formas de contribuir para a elaboração de estratégias que visem proteger as espécies e os ecossistemas ameaçados. Durante as aulas são abordados também temas com a identificação de áreas prioritárias para a conservação e o papel das áreas protegidas para a conservação das espécies e do ecossistema. Ao final da disciplina, os alunos são convidados a elaborar uma monografia com temas sobre a Biologia da Conservação, e aqui, estão alguns trabalhos transformados em capítulos desta nova edição da série “Reflexões em Biologia da Conservação”. Este livro é a forma de trazer um pouco do conhecimento e experiências da sala de aula para a sociedade, na expectativa de estimular o debate, uma vez que vimos, em anos passados, um grande descaso dos governantes com o meio ambiente e uma certa apatia da sociedade em relação aos problemas ambientais. Felizmente, esta tendência vem se revertendo nos últimos dois anos, agora, principalmente estimulados com a proximidade da realização da COP do clima no Brasil. Luciano Fogaça de A. Montag Professor Associado IV Universidade Federal do Pará Sumário Apresentação Prefácio AMEAÇAS À BIODIVERSIDADE E AÇÕES DE MITIGAÇÃO Ameaças aos serviços ecossistêmicos da polinização ............................... 13 Paulo Gomes Resíduos sólidos e suas implicações na biodiversidade ............................25 Tassia Takashima Espécies exóticas invasoras e a perda de biodiversidade: existe relação? ............................................................................................ 36 Natalia Lameira Impactos ambientais e estratégias para a recuperação de áreas degradadas ................................................. 45 Joanes Nunes O “boom” do açaí (Euterpe oleracea Mart.) e o risco de colapso na biodiversidade da floresta de várzea no estuário amazônico: uma reflexão crítica .....................................................................................55 Matheus Boteli A ameaça da urbanização: ilhas de calor no município de Belém ............ 64 Rayssa Saldanha CONFLITOS NA RELAÇÃO HOMEM X NATUREZA Ações antrópicas e seus efeitos sobre a Panthera onca ............................81 Vandressa Hernriques A potencialidade do surgimento de uma nova pandemia no Brasil ........ 87 Luanny Cunha EM BUSCA DA SUSTENTABILIDADE Controvérsias e desafios dos espaços de Gestão Participativa como contribuição à conservação dos recursos naturais no Brasil ......... 95 Shirley Amélia Silva Leão O etnoconhecimento e sua contribuição para a promoção de sociedades sustentáveis ......................................... 102 Lucimara Guedelha da Costa Importância da exploração de Produtos Florestais Não Madeireiros na Economia Local .........................................................116 Kayuri Silva O artesanato de Rondônia como fator de sustentabilidade em comunidades rurais ..........................................................................................123 Rosinaira Gonzaga Autores....................................................................................................... 136 AMEAÇAS À BIODIVERSIDADE E AÇÕES DE MITIGAÇÃO Ameaças aos serviços ecossistêmicos da polinização Paulo Gomes Serviços ecossistêmicos da polinização e a economia mundial Os serviços ecossistêmicos da polinização desempenham um papel importante na reprodução sexual das plantas, na conservação da biodiversidade e do bem-estar humano. Segundo Costanza et al. (2017), os serviços da polinização podem ser de três tipos: serviço regulatório, com a manutenção da variabilidade genética das populações de plantas que mantém a biodiversidade; serviço de provisão, com a produção de alimentos (frutas, mel, pólen, própolis, geoprópolis, sementes e mel); e serviço cultural, com os valores culturais atrelados ao conhecimento tradicional. A polinização é indispensável para a produção das culturas de frutos e sementes altamente dependentes dos polinizadores (Klein et al., 2007), valor cultural elevado atrelado à produção de mel (Azeez et al., 2012), bem como associado às tradições culturais (Kumar; Reddy, 2011). A polinização proporciona um incremento econômico significativo no rendimento de muitas das principais culturas e, por isso, apresenta grande potencial como serviço ecossistêmico de provisão relacionado à produção de alimentos (Ollerton et al., 2011; Fijen et al., 2018). Em termos monetários, segundo o Relatório de Avaliação sobre Polinizadores, Polinização e Produção de Alimentos da IPBES (2016), a valoração econômica global do serviço ecossistêmico da polinização está estimado entre US$ 235 bilhões e US$ 577 bilhões (IPBES, 2016). No Brasil, esse valor do serviço ecossistêmico da polinização foi estimado, no ano de 2018, em R$ 43 bilhões para a produção de 67 plantas de interesse econômico (Figura 1) (BPBES, 2019). A polinização sustenta aproximadamente 75% da produção das culturas vegetais em todo o mundo e a diminuição desse serviço pode implicar no rendimento e na qualidade de várias culturas vegetais (Lindström et al., 2016; Toledo-Hernández et al., 2017). Os polinizadores são fundamentais no que tange à sua influência na economia e, principalmente, para a conservação da biodiversidade, visto que 87,5% das espécies de plantas com flores dependem dos animais polinizadores (Ollerton et al., 2011). 14 | Reflexões em Biologia da Conservação A produção agrícola de escala mundial tornou-se mais dependente dos polinizadores com o aumento das áreas cultivadas (Breeze et al., 2011), com isso, tornaram-se grandes as preocupações sobre os impactos negativos que o declínio dos polinizadores pode causar na agricultura e economia global (Potts et al., 2016), além do seu efeito em cascata, aumentando o declínio da biodiversidade e do funcionamento do ecossistema. O declínio dos polinizadores está relacionado ao mau uso da terra, que leva à diminuição das áreas favoráveis à nidificação e forrageamento, o que afeta os serviços ecossistêmicos prestados por esses organismos (IPBES, 2016). A perda de um único membro funcional das redes de interações ecológicas pode levar ao declínio acentuado ou à extinção de uma ou muitas populações. Por isso, a perda desses serviços ecossistêmicos é incalculável. Para Anderson et al. (2011), as ameaças que envolvem interações entre espécies muitas vezes têm um efeito em cascata de extinção, que levará à extinção de outros níveis tróficos. Figura 1. Valoração dos serviços ecossistêmicos da polinização para 67 plantas de interesse econômico no Brasil no ano de 2018. Fonte: Extraído do Relatório temático sobre Polinização, Polinizadores e Produção de Alimentos no Brasil, 2019. Reflexões em Biologia da Conservação | 15 Principais polinizadores O Brasil possui grande diversidade de animais polinizadores que são fundamentais para o equilíbrio ecológico dos ecossistemas. Esses organismos que proveem o serviço ecossistêmico de polinização estão sofrendo declínio nas suas populações devido às ações antrópicas que diminuem seus hábitats e chances de nidificação e alimentação. No Brasil, das 191 espécies de plantas cultivadas que se tem registro de polinização, a relação dos visitantes florais com suas respectivas plantas só é conhecida e estudada para 144 (75%) espécies dessa listagem. Ao todo, esses visitantes florais somam 609 espécies, distribuídas em 386 gêneros e 176 famílias. Dentre esses, 249 espécies pertencentes a 133 gêneros e 43 famílias são polinizadoras de 114 cultivos de plantas (60%). São considerados nove grupos de polinizadores: abelhas (66,3% das espécies de polinizadores), besouros (9,2%), borboletas (5,2%), mariposas (5,2%), aves (4,4%), vespas (4,4%), moscas (2,8%), morcegos (2%) e hemípteros (0,4%) (BPBES, 2019). As abelhas são consideras os principais polinizadores tanto de ecossistemas agrícolas quanto dos naturais, assumindo extrema importância para a manutenção da vida no planeta (Rosa et al., 2019). O serviço da polinização contribui com cerca de 35% da produção mundial de alimentos (Klein et al., 2007) e, dentre esses, as abelhas contribuem em aproximadamente 73% da polinização das espécies vegetais cultivadas no mundo (Ricketts et al., 2008). A diversidade de abelhas no mundo compreende cerca de 20.759 mil espécies, sendo que cerca de 1961 foram identificadas no Brasil, (Discover Life, 2022) os quais estão distribuídas em cinco famílias – Andrenidae, Apidae, Colletidae, Megachilidae e Halictidae (Imperatriz-Fonseca et al., 2012). Na Tabela 1, são apresentados alguns grupos de abelhas e as plantas cultivadas que estas podem polinizar no Brasil (Marques et al., 2015). As populações da abelha Apis mellifera L. (Apidae, Apini) vêm sendo as mais utilizadas em todo o mundo, em razão do fácil manejo para polinização de diferentes plantas cultivadas, grande número de indivíduos nas colônias e sendo encontrada facilmente em diferentes ecossistemas (Pires et al., 2016). No Brasil, a A. mellifera (africanizada) e as abelhas indígenas sem ferrão (Apidae, Meliponini) são as principais visitantes florais e polinizadores dos cultivos agrícolas. A A. mellifera tem sido relacionada a 86 cultivos e como polinizadora de 54. Por outro lado, as abelhas sem ferrão são registradas como visitantes florais de 107 cultivos de plantas e como polinizadoras de 52 (BPBES, 2019). Na Amazônia, a sobrevivência das abelhas sem ferrão está em estado de alerta devido à supressão intensiva das florestas. A perda desses polinizadores levará ao declínio de 16 | Reflexões em Biologia da Conservação grande parte da biodiversidade da região, que depende dos serviços da polinização (Brown; Oliveira, 2014). Tabela 1. Abelhas e plantas agrícolas polinizadas no Brasil. Tribo de abelhas Nome científico Nome popular Plantas que polinizam Apini Apis mellifera L. Abelha-de-mel ou abelha- africanizada Algodão, café, caju, canola, cebola, chuchu, coco, girassol, goiaba, jabuticaba, laranja, limão, mamona, melão, pêssego e pitanga. Bombini Bombus morio (Sw.) Mamangavas- do-chão Abóbora, feijão, goiaba, melão, morango, pimentão e tomate. Euglossini Euglossa cordata L. Eulaema nigrita Lep. Abelhas-das- orquídeas Batata, berinjela, jabuticaba, pimentão e tomate. Meliponini Trigona spinipes (Fab.) Melipona quadrifasciata Lep. Abelhas-sem- ferrão Abacate, abóbora, algodão, berinjela, café, carambola, chuchu, coco, goiaba, jabuticaba, Laranja, mamona, manga, manjericão, melão, morango, pepino, pêssego, pimentão, pitanga, tomate e urucum. Centridini Centris analis (Fab.) Abelhas- coletoras de- óleo Acerola, caju, feijão, goiaba, maracujá e tamarindo. Xylocopini Xylocopa muscaria (Fab.) Mamangavas ou mamangavas- de-toco Abóbora, berinjela, feijão, goiaba, maracujá, morango, pimentão, pitanga e tomate. Augochlorini Augochloropsis electra (Sm.) Abelhas- vibradoras Abóbora, algodão, goiaba, maracujá, pimenta, tomate e urucum. Megachilini Megachile pseudanthidioides Moure Epanthidium tigrinum (Schrottky) Abelhas- cortadoras-de- folhas Abóbora, feijão, maçã, melão, morango e vagem. Fonte: Adaptado de Marques et al. 2015. Reflexões em Biologia da Conservação | 17 Ameaças ao serviço de polinização As alterações na estrutura das paisagens, como o aumento no índice de desflorestamento, as mudanças globais do clima, agricultura intensiva com o aumento no uso de agrotóxicos e adubos químicos, introdução de espécies invasoras, disseminação de patógenos e a ausência de corredores ecológicos, configuram-se como as principais ameaças aos serviços de polinização. Atualmente, a comunidade internacional voltou sua atenção para a polinização como serviço ecossistêmico essencial, em razão da notificação do declínio das populações de polinizadores devido às pressões humanas, com foco ao uso de pesticidas, à degradação das paisagens ou à associação de ambos (Leza et al., 2018). O uso inadequado de agroquímicos no controle de pragas e doenças também atinge os polinizadores, pois alguns inseticidas de nova geração podem ter componentes com ação neurotóxica que potencializam seus efeitos (Freitas; Pinheiro, 2012). O Relatório temático sobre Polinização, Polinizadores e Produção de Alimentos no Brasil listou os principais riscos e oportunidades potenciais relacionados aos polinizadores e ao gerenciamento do serviço ecossistêmico de polinização no Brasil (Tabela 2). As alterações climáticas implicam em mudanças na composição das comunidades, tanto animais quanto vegetais, por meio de turnos na faixa geográfica e/ou na fenologia dos polinizadores e das espécies vegetais. Em vista disso, os padrões alterados de temperatura e precipitação podem apresentar graves desafios à agricultura e ao abastecimento de alimentos em muitas regiões do mundo (IPCC, 2018). Dessa forma, poderá acarretar a redução da qualidade das culturas (Ahmed; Stepp, 2016) e no aumento das pressões de pragas e doenças, representando graves desafios para evitar o uso exacerbado de agrotóxicos (Myers et al., 2017) e, consequentemente, a perda dos polinizadores. Além da degradação do uso da terra (perda de néctar, pólen e locais para nidificação), a introdução de polinizadores não nativos pode aumentar o risco de propagação de patógenos, especialmente de patógenos não nativos, que provavelmente mostram maior virulência em seus novos hospedeiros. As mudanças climáticas previstas pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) para os próximos anos são as maiores ameaças para os polinizadores e exigem ações imediatas para conter, mitigar ou evitar os seus efeitos (Kerr et al., 2015; Mahony; Hulme, 2016), visto que os polinizadores que não possuem adaptações morfofisiológicas para adaptar-se a essas mudanças climáticas estarão seriamente ameaçados. 18 | Reflexões em Biologia da Conservação A emissão de gases do efeito estufa e o desflorestamento são um dos principais fatores que preocupam os cientistas. Tabela 2. Principais impactos potenciais do declínio dos polinizadores e oportunidades associadas aos polinizadores, à polinização e à produção de alimentos no Brasil. Impactos potenciais do declínio de polinizadores Oportunidades criadas pelo manejo sustentável de polinizadores e pela polinização Impactos diretos na produção agrícola Déficit de polinização em cultivos, reduzindo a quantidade ou qualidade visual e nutricional de alimentos (e também fibras, combustíveis e sementes). Instabilidade nas safras pelas mudanças na comunidade de polinizadores. Redução na produção de mel e outros produtos apícolas, devido ao declínio de colônias de abelha africanizada e abelhas sem ferrão. Declínio na produção de frutos coletados por comunidades locais. Comprometimento da resiliência dos sistemas de produção agrícola em longo prazo. Necessidade de maior conversão de terras para produção agropecuária, pela redução de produção e/ou rendimentos. Maior instabilidade de preços e da capacidade de atendimento às demandas, em resposta às variações de produção. Perdas de renda e da capacidade de subsistência para produtores de cultivos dependentes de polinizadores. Redução na produção de produtos lácteos e de carne, devido ao declínio na qualidade da forragem (inclui alimentação de gado com forragens semeadas e derivados de soja [G. max], por exemplo). Incremento na produtividade ou na estabilidade em longo prazo, a um custo menor do que o do sistema de polinizadores manejados ou de outros meios (por exemplo, polinização manual). Redução da dependência dos polinizadores manejados, com a manutenção de áreas naturais que proveem serviço ecossistêmico de polinização mais resiliente, com benefícios associados a outros serviços ecossistêmicos, como o fornecimento de água. Redução do risco financeiro decorrente de fluxos de renda diversificados, por meio de outros tipos de safra. Aumento de valor agregado e de ingresso em mercados mais restritivos, por meio de certificações de sustentabilidade dos produtos agrícolas e de apicultura/meliponicultura. Programas, ações, práticas e avanços legais na direção de uma agricultura econômica e ambientalmente mais sustentável em longo prazo. Ação sinérgica envolvendo conservação de polinizadores e outras práticas de intensificação ecológica para incremento de outros serviços ecossistêmicos, por exemplo controle biológico, regulação do regime hidrológico e diminuição da sedimentação com restauração de vegetação ciliar. Reflexões em Biologia da Conservação | 19 Impactos potenciais do declínio de polinizadores Oportunidades criadas pelo manejo sustentável de polinizadores e pela polinização Impactos diretos na produção agrícola Redução na qualidade nutricional da dieta humana (teor de vitaminas, micronutrientes etc.), devido ao aumento dos preços ou à queda da qualidade dos produtos alimentares e do mel. Impactos na biodiversidade Perda de diversidade de polinizadores nativos. Perda de diversidade de plantas nativas devido ao déficit de polinização. Aumento na incidência de doenças em populações de polinizadores silvestres e manejados. Aumento da incidência e disseminação de espécies invasoras devido ao transporte de polinizadores por humanos. Instabilidade em processos ecossistêmicos devido à perda de interações planta-polinizador (redução de alimentos para frugívoros, por exemplo). Medidas para conservação de polinizadores nativos, inclusive como espécies-bandeira, fomentando o efeito em cadeia para conservação da biodiversidade. Conservação das comunidades de polinizadores, visando aumento da resiliência a mudanças climáticas e a outras variações ambientais, tais como invasão biológica e transferência de doenças a espécies nativas. Polinizadores como recursos biológicos para pesquisa, desenvolvimento e inovação, desde desenvolvimento de medicamentos com base em produtos de abelhas a minirrobôs aéreos (robobees). Impactos na diversidade biocultural Perda de valor estético, felicidade ou bem-estar associados a polinizadores e às plantas nativas que deles dependem. Perda de modos de vida distintos, práticas culturais e tradições em que os polinizadores ou seus produtos são parte constituinte. Diminuição da autossuficiência econômica ou dietética de populações tradicionais e povos indígenas, levando à perda de identidade e de soberania. Manutenção de valor estético, felicidade ou bem-estar associados a polinizadores e plantas nativas dependentes desses, por exemplo, incremento de áreas de proteção permanente, unidades de conservação, criação de jardins de polinizadores, condomínios de abelhas. Manutenção de modos de vida distintos, práticas culturais e tradições nas quais os polinizadores ou seus produtos são parte constituinte. Desenvolvimento e disseminação de materiais didáticos sobre polinizadores e polinização no ensino e na educação não formal. Fonte: Adaptado do Relatório temático sobre Polinização, Polinizadores e Produção de Alimentos no Brasil, 2019. 20 | Reflexões em Biologia da Conservação Por isso, o relatório especial divulgado pelo IPCC em 8 de outubro de 2018 e aprovado por 195 governos prevê as perspectivas de limitar o aquecimento global a 1,5°C em relação ao Período Pré-Industrial (IPCC, 2018). Esse relatório ressaltou a necessidade crítica de uma ação em prol da amenização das alterações climáticas urgente a partir da tomada de decisão dos governos, como a recuperação de áreas degradadas e restauração ambiental, tal como reforçar os seus compromissos climáticos nacionais em relação ao Acordo de Paris. Para garantir os serviços ecossistêmicos dos polinizadores em ecossistemas agrícolas, é importante identificar as práticas de manejo que diminuem o efeito das alterações ambientais sobre as fontes alimentares desses polinizadores e sobre os locais de nidificação (Gaglianone et al., 2010). Contudo, a falta de pesquisa complementar sobre a gestão de polinizadores por agricultores, comunidades e governos, que deveriam desempenhar um papel importante na luta para a conservação dos polinizadores, pode dificultar a proteção dos polinizadores (Christmann, 2019), visto que no atual cenário do desenvolvimento econômico agrícola, as pesquisas estão mais voltadas para a produção de sementes, qualidade dos solos e controle de pragas e doenças nos cultivares – por outro lado, há menor atenção para a importância dos serviços da polinização (Fijen et al., 2018; Christmann et al., 2017). Medidas que podem diminuir os impactos ambientais aos polinizadores Considerando o atual contexto climático e o possível aumento da temperatura global associado ao aumento de áreas cultivadas, utilização de adubos químicos, agrotóxicos e a dependência dos serviços de polinização, é recomendável tornar as paisagens agrícolas amigáveis à manutenção das comunidades dos polinizadores. Os primeiros passos para garantir de forma suficiente os serviços de polinização visando ao equilíbrio ecológico dos ecossistemas é diminuir as áreas de expansão da agropecuária, reutilizando as áreas que estão abandonadas ou em processo de sucessão ecológica inicial. Além disso, minimizar a exploração dos recursos madeireiros, incentivar a construção de corredores ecológicos na agricultura, restauração de áreas degradadas e diminuir os insumos agrícolas, essas são estratégias que podem minimizar os impactos negativos aos agentes polinizadores. Como proposto por Comín et al. (2018), é possível incorporar índices de serviços ecossistêmicos da Reflexões em Biologia da Conservação | 21 polinização para a priorização de áreas para a restauração ecológica. Alguns estudos de restauração ecológica têm como alvo as populações de abelhas silvestres, por apresentarem maior desempenho na polinização (Pan et al., 2017; Tonietto; Larkin, 2018). Alguns estudos comprovaram que a visitação do polinizador diminui com o aumento da distância das áreas naturais, o que resulta no declínio da produção e da qualidade dos frutos (e.g. Chacoff; Aizen, 2006; Cavalheiro et al., 2010; Cavalheiro et al., 2012). Para as culturas de Citrus paradisi Macf. (toranja - híbrido resultante do cruzamento do pomelo “Citrus maxima (Burm). Merr.” com a laranja “Citrus sinensis (L.) Osbeck.”, Rutaceae) na Argentina, foi recomendado o reflorestamento da borda para promover os estoques de polinizadores, pois verificaram que na borda da floresta o número de espécies visitantes florais nas flores da C. paradisi é duas a quatro vezes maior que 1.000 m dentro do cultivo (Chacoff; Aizen, 2006). Em cultivos de Mangifera indica L. (manga; Anacardiaceae) na África do Sul, Cavalheiro et al. (2010) verificaram que nem a eliminação de agrotóxicos e nem a adição de Apis mellifera compensaram o declínio dos visitantes florais causados pelo aumento da distância do habitat natural. Mais tarde, Cavalheiro et al. (2012) observaram que a adição de áreas de compensação de flores nativas próximo a cultura de M. indica aumentou significativamente a riqueza de espécies e a abundância de visitantes florais, o que ajudou a reduzir os efeitos causados pelo aumento da distância entre os cultivos e as áreas naturais. Alguns estudos reforçam a ideia de que a presença de diversidade de flores nativas antes e durante o florescimento das culturas agrícolas facilita a polinização do cultivo de forma hiperabundante. Contudo, esses aumentos melhoram (mas não compensam totalmente) os efeitos negativos do aumento da distância entre cultivos e hábitat naturais para culturas dependentes dos polinizadores (Winfree et al., 2008; Carvalheiro et al., 2011). Aumentar a abundância e a diversidade de visitantes florais por meio da implementação das áreas de compensação de flores nativas associada ao lucro econômico global pode ser uma estratégia importante (Cavalheiro et al., 2012). Para isso, é necessária a combinação de diferentes fatores, como a conservação de fragmentos florestais de área natural e reduzir o uso de agroquímicos, com isso, as áreas de compensação de flores nativas poderiam aumentar a produtividade das culturas dependentes de polinizadores, diminuindo a necessidade de expansão agrícola e contribuindo para a agricultura sustentável. 22 | Reflexões em Biologia da Conservação Considerações finais Os argumentos apresentados neste capítulo trazem abordagens que são necessárias para uma reflexão acerca da importância da conservação dos polinizadores para a manutenção dos serviços ecossistêmicos da polinização. Os serviços da polinização são fundamentais para manutenção da biodiversidade, equilíbrio dos ecossistemas e a da vida humana, pois estão diretamente ligados à reprodução das plantas, produção de alimentos e a economia em escala mundial. Contudo, o mau uso da terra, associado às mudanças climáticas, tem se tornado uma das principais ameaças aos serviços da polinização, principalmente para as abelhas, que são os mais importantes e principais agentes polinizadores. Dessa forma, faz-se necessária uma reflexão acerca dos problemas ambientais, sociais, econômicos e políticos que a perda ou a diminuição significativa dos serviços da polinização podem acarretar para os ecossistemas e para a humanidade. Com isso, algumas medidas devem ser tomadas pela sociedade e principalmente pelos agricultores e por meio de incentivos de políticas públicas que visem à conservação dos polinizadores. Referências AHMED, S.; STEPP, J. R. 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Neste cenário, a elevada geração dos resíduos sólidos, em conjunto com a gestão ineficiente dos mesmos, compõe uma ameaça à biodiversidade e à dinâmica dos ecossistemas em escala local, regional e global (Alam; Ahmade, 2013; Mølgaard, 1995). Impactos como degradação do solo, poluição de corpos hídricos, poluição do ar, proliferação de doenças e de vetores são consequências diretas da ineficiência no processo da gestão e gerenciamento dos resíduos sólidos (Jacobi; Besen, 2011; Gouveia, 2012). Dessa forma, reconhecendo que os resíduos sólidos são um problema nacional, instituiu-se no Brasil a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), pela promulgação da Lei nº 12.305/2010 (Brasil, 2010a), sendo regulamentada pelo Decreto nº 7.404/2010, o que constituiu um marco legal para a gestão integrada e o gerenciamento dos resíduos sólidos no país (Brasil, 2010b). A PNRS estabeleceu itens como a responsabilidade compartilhada pelos resíduos sólidos entre o poder público, a iniciativa privada e a sociedade como um todo, de modo articulado. O poder público é responsável pela implementação e operacionalização, incluídas nas etapas do plano de gerenciamento. Os fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes devem atuar na implantação de medidas e procedimentos de compra de produtos ou embalagens usadas, além de dispor postos de entrega ou atuar em conjunto com cooperativas e associações de catadores. Os consumidores (fonte geradora) são responsáveis por acondicionar e disponibilizar adequadamente os resíduos sólidos reutilizáveis e recicláveis para coleta ou devolução. Entretanto, a realidade observada não condiz com o planejado para cada ator social. Os hábitos e os costumes “já enraizados” da sociedade, permeiam entre o consumo, desperdício e descarte inadequado, configurando o primeiro impasse para 26 | Reflexões em Biologia da Conservação alcançar a eficiência no processo de gestão e gerenciamento dos resíduos sólidos urbanos (Feitosa et al., 2016). Poucas abordagens são feitas em relação aos impactos que a destinação ou disposição inadequada dos resíduos ocasionam à biodiversidade e o papel que os consumidores exercem nesse sistema. Dessa forma, buscou-se esclarecer os seguintes tópicos neste capítulo: (i) Quais impactos que os resíduos sólidos podem causar à biodiversidade? (ii) Qual a importância do papel desempenhado pelos consumidores para minimizar os impactos oriundos dos resíduos sólidos? (iii) Quais estratégias podem ser adotadas para melhorar o engajamento da população no processo de gestão dos resíduos sólidos? Impactos causados na biodiversidade pelos resíduos sólidos Sabe-se que os resíduos sólidos representam um sério problema urbano (Conke; Nascimento, 2018). Entretanto, os impactos causados pelo descarte inadequado dos resíduos sólidos alastram-se além das dimensões geopolíticas de cidades, estados, regiões ou países e afetam significativamente a biodiversidade (Monteiro; Ivar do Sul; Costa, 2018). As ilhas de lixo ou manchas de lixo flutuantes, oriundas do acúmulo de resíduos em áreas de correntes oceânicas rotativas (Figura 1A), configuram um exemplo claro dos impactos que ultrapassam as dimensões geopolíticas e urbanas, em que mais de 14 quilotoneladas de resíduos plásticos podem estar à deriva nos oceanos (Figura 1B) (Cozar et al., 2014). Outro exemplo, compreende as milhares de toneladas de resíduos que se depositam em ilhas inabitadas pelo homem, como ocorre na Ilha Henderson, no Pacífico Sul, onde 17,6 toneladas de resíduos podem ser encontrados (Figura 1C) (Lavers; Bond, 2017). A quantidade e a disposição inadequada dos resíduos sólidos nos ecossistemas aquáticos ou terrestres também representam uma séria ameaça à biodiversidade (Monteiro; Ivar do Sul; Costa, 2018). De modo geral, os resíduos dispostos inadequadamente nos ecossistemas podem favorecer o emaranhamento, a ingestão, o sufocamento e o enforcamento dos organismos, bem como facilitar o estabelecimento de espécies invasoras (Figura 2A-D) (Gregory, 2009). Tais fatores, colaboram para que inúmeros organismos morram em agonia diariamente, como retratado no relatório do Jornal Independent (www.independent.co.uk) em 2018, informando que mais de 100 mil baleias, golfinhos, focas e tartarugas morrem anualmente associados aos detritos marinhos (resíduos sólidos plásticos e outros materiais sintéticos não biodegradáveis). Reflexões em Biologia da Conservação | 27 Embora ainda sejam escassos estudos sobre o impacto dos resíduos sólidos no funcionamento dos ecossistemas, observa-se que populações biológicas podem ser ameaçadas quando esses materiais são dispostos inadequadamente no meio ambiente. Wilcox, Van Sebille e Hardesty (2015) previram que populações de aves poderão ser ameaçadas pela ingestão de detritos marinhos e, caso não haja gestão eficaz para reduzir esta ameaça, no ano de 2050 será possível encontrar esses tipos de materiais no trato intestinal de 99% das aves marinhas (Figuras 2C e 2D). Populações de organismos aquáticos também poderão ser afetadas, como reportado no estudo de Sussarellu et al. (2016) com ostras, identificando efeitos negativos na reprodução, no desempenho da prole, na captação e na alocação de energia pela exposição às partículas de microplásticos. Figura 1. (A) Concentração de resíduos plásticos nos oceanos; (B) Ilha de lixo; (C) Resíduos em ilhas remotas e inabitadas pelo homem – Ilha de Henderson. Fontes: (A) Cozar et al., 2014; (B) Caroline Power, 2017; (C) Lavers e Bond, 2017. 28 | Reflexões em Biologia da Conservação As superfícies de resíduos sintéticos e não biodegradáveis dispostos inadequadamente nos ecossistemas configuram um nicho vago e propício para o estabelecimento de espécies oportunistas de organismos sésseis e/ou móveis (Gregory, 2009). Como exemplo, é possível observar a colonização de briófitas sobre a sola de um sapato disposto inadequadamente em um ecossistema florestal, bem como a utilização de um recipiente plástico como refúgio por um caranguejo eremita roxo (Coenobita spinosa) (Figura 3A-B). A acessibilidade para o estabelecimento de espécies oportunistas e a mobilidade que os resíduos sólidos possuem favorecem a dispersão de espécies invasoras exóticas e possivelmente agressivas, como no caso de cracas, vermes tubulares, foraminíferos, algas coralinas, hidroides e moluscos bivalves que podem ser encontrados em ilhas de lixo oceânicas (Gregory, 2009). Figura 2. Exemplos de emaranhamento: (A) Um lobo-marinho na Nova Zelândia preso em redes descartadas; (B) Rede de pesca fantasma – artes de pesca abandonadas arrastadas de 0,100 m – na plataforma Otago; (C) Exemplos de ingestão: Albatroz-de- Laysan (Phoebastria immutabilis); (D) Plástico do estômago de uma jovem baleia-minke (Balaenoptera acutorostrata). Fonte: Gregory (2009). Reflexões em Biologia da Conservação | 29 O papel desempenhado pelo gerador de resíduos sólidos O gerenciamento dos resíduos sólidos urbanos (RSU), i.e., dos resíduos oriundos de atividades domésticas e de limpeza urbana (BRASIL, 2010a), abrange diferentes etapas, iniciando com o acondicionamento até a disposição final dos resíduos sólidos (Tabela 1) (Monteiro et al., 2001). Dentre estas etapas, é no acondicionamento que deve haver o maior envolvimento e empoderamento dos cidadãos com o problema dos resíduos sólidos (Pereira, 2019). O papel exercido pelos cidadãos enquanto consumidores e fonte geradora é crucial para viabilizar com eficiência todos os segmentos sequentes do gerenciamento dos RSU (Bernardes; Collares, 2017). A correta atuação desses atores sociais minimizará ou evitará os efeitos negativos ao meio ambiente e à biodiversidade causados pelo descarte inadequado dos resíduos sólidos (Conke; Nascimento, 2018). Dessa forma, os consumidores (fonte geradora) são responsáveis por acondicionar e disponibilizar adequadamente os resíduos sólidos reutilizáveis e recicláveis para coleta ou devolução, i.e., segregados conforme a tipologia para promoção da coleta seletiva (Pereira, 2019). Reconhecendo a importância da participação dos cidadãos como fonte geradora, Monteiro et al. (2001) ressaltam que o tipo mais eficaz de tratamento dos resíduos sólidos é o prestado pela própria população, quando empenhada em: (i) reduzir a quantidade de lixo; (ii) evitar o desperdício; (iii) reaproveitar os materiais; (iv) separar os recicláveis em casa ou na própria fonte; e (v) desfazer-se do resíduo gerado de forma correta. Figura 3. Espécies oportunistas de (A) briófitas e (B) caranguejo eremita roxo (Coenobita spinosa) colonizando resíduos sólidos. Fontes: (A) Bianca Pacheco, 2020; (B) Lavers e Bond, 2017. 30 | Reflexões em Biologia da Conservação Tabela 1. Etapas do gerenciamento de resíduos sólidos urbanos. Etapas (ator social mais efetivo) Descrição Importância Acondicionamento (Gerador) Forma como os resíduos são armazenados até sua coleta, sendo compatível com o tipo e a quantidade de resíduos (Monteiro et al., 2001). A qualidade da operação de coleta e transporte dos resíduos depende da forma adequada no acondicionamento, armazenamento e da disposição dos recipientes (Pereira, 2019). Coleta e transporte (Gestão pública) Operação de recebimento do resíduo acondicionado pelo gerador e do envio para áreas de transbordo, tratamento ou disposição final (Pereira, 2019). A coleta e transporte evita a proliferação de moscas, aumento do mau cheiro e a atratividade de roedores, insetos e outros animais (Monteiro et al., 2001). Transferência (Gestão pública) Em cidades de médio e grande portes, compõem unidades instaladas próximas aos centros urbanos (estações de transferência ou transbordo), para descarga dos caminhões de coletas cheios (Monteiro et al., 2001). Evita atrasos nos roteiros de coleta, redução de custo no transporte dos resíduos e colabora na conservação de caminhões de coleta (Monteiro et al., 2001). Tratamento (Diversos) Série de procedimentos que reduzem a quantidade ou o potencial poluidor dos resíduos sólidos, sendo formas de destinação final ambientalmente adequadas (reutilização, reciclagem, compostagem, recuperação, aproveitamento energético e outros) (Monteiro et al., 2001). Proporciona a preservação de recursos naturais, economia de energia e transporte e outros benefícios (Monteiro et al., 2001). Disposição final (Gestão pública- geralmente empresas terceirizadas) Local de confinamento dos rejeitos (resíduos sólidos em que todas as possibilidades de tratamento e recuperação foram esgotadas) (Brasil, 2010a). Considerando o aterro sanitário como forma de disposição final, é possível evitar danos ao meio ambiente, à saúde e à segurança pública com infraestrutura e normas operacionais específicas (Trigueiro, 2005). Reflexões em Biologia da Conservação | 31 Entretanto, a realidade observada não condiz com o papel que deve ser exercido pelo gerador, em que os hábitos e os costumes da sociedade contemporânea estão sendo regidos pelo consumo, desperdício e descarte inadequado, o que potencializa os RSU como ameaça à biodiversidade (Feitosa et al., 2016). Em um estudo sobre a percepção quanto à atribuição da responsabilidade aos RSU de estudantes em uma instituição de ensino superior como fonte geradora, observou-se que a maioria dos entrevistados são apenas expectadores dentro do sistema de gerenciamento, enfatizando que “A quantidade de resíduos que eu gero não faz diferença para os problemas relacionados ao lixo”, e que “Minha função é só descartar em qualquer recipiente o resíduo que gero” (Takashima et al., in prep.). Tal fato, embora identificado tecnicamente para um pequeno grupo de pessoas, representa um cenário que se perpetua para grande parte da população brasileira, ao verificar que 29.5 milhões de toneladas de RSU gerados em 2018 foram despejados em locais inadequados, e que 1.500 (27%) municípios brasileiros não possuem qualquer iniciativa de coleta seletiva (ABRELPE, 2019). Estratégias preventivas que impulsionaram a colaboração na fonte geradora É notável que o papel desempenhado pelos cidadãos como fonte geradora é essencial à construção de um mundo sustentável e depende muito da consciência (percepção e sensibilidade) e do comportamento pró-ambiental, ou seja, do comportamento com atitudes tomadas em benefício do meio ambiente (Corral-Verdugo; Pinheiro, 1999). Para isso, em um cenário onde a coleta seletiva é inoperante e a gestão dos resíduos sólidos ainda é deficiente, torna-se necessária a adoção de estratégias que promovam o melhor engajamento da população com as questões relacionadas aos resíduos sólidos. Existem diversas estratégias preventivas voltadas para a população, sendo as mais difundidas as estratégias participativas com ação direta de um interventor (educador ambiental) que trabalhe na conscientização e/ ou sensibilização da população, compondo estratégias que recorrem à educação ambiental (Figura 4). Essas estratégias partem do pressuposto que a conscientização ambiental terá influências positivas no comportamento pró-ambiental de indivíduos podendo promover mudança na forma de consumo, na quantidade de desperdício, no descarte dos resíduos gerados e outros (Afonso et al., 2016). Oficinas, atividades lúdicas, palestras são 32 | Reflexões em Biologia da Conservação exemplos de estratégias participativas muito aplicadas para promover a educação ambiental (Furiam; Günther, 2006). Figura 4. Tipos de estratégias preventivas que impulsionam a participação de cidadãos como fonte geradora de resíduos sólidos. Fonte: Autora (2020). Entretanto, existem as estratégias indiretas que impulsionam a participação do ator social, sem, necessariamente, haver a presença de um interventor com medidas que incentivam o comportamento pró-ambiental do ator social de forma inconsciente, denominadas como estratégias de Eco-feedback (Figura 4) (Froehlich; Findlater; Landay, 2010, adaptado). São exemplos desse tipo de estratégia placas sinalizadoras e ilustrativas (Figura 5) e o design das lixeiras seletivas, que indiretamente incentivaram a correta segregação dos resíduos sólidos por parte dos consumidores (Ataíde, 2018; Mozo-Reyes et al., 2016). Figura 5. Placas ilustrativas/demonstrativas no segundo período de observação. Fonte: Ataíde (2018). Reflexões em Biologia da Conservação | 33 Considerações finais O descarte inadequado dos resíduos sólidos urbanos acarreta impactos que ultrapassam as dimensões geopolíticas e urbanas, o que representa uma séria ameaça à biodiversidade de ecossistemas terrestres e aquáticos. O emaranhamento, a ingestão, o sufocamento e o enforcamento dos organismos, bem como a facilitação para o estabelecimento de espécies invasoras, são exemplos dos impactos sobre os organismos que possuem contato direto com os detritos dispostos inadequadamente nos ecossistemas. Nesse cenário, é notável o papel que os consumidores, como fonte geradora de resíduos sólidos, podem desempenhar e desempenham frente à construção de um mundo sustentável, para minimização dos efeitos negativos sobre a biodiversidade. Desta forma, consumidores devem seguir o princípio estabelecido na PNRS, de não geração, redução, reutilização, destinação adequada, para viabilizar as demais etapas do gerenciamento dos resíduos sólidos (reciclagem, tratamento e disposição fina ambientalmente adequada). Estratégias preventivas que impulsionam a participação mais ativa da população (geradora) na etapa de acondicionamento adequado e do gerenciamento dos resíduos sólidos e que promovem a eficiência nas etapas subsequentes, podem ser: (i) Estratégias articuladas, com ação direta de um interventor (educador ambiental), que trabalhe na conscientização e/ ou sensibilização da população, compondo estratégias que recorrem à educação ambiental; (ii) Estratégias de Eco-feedback, estratégias indiretas que impulsionam a participação do ator social, sem, necessariamente, haver a presença de um interventor, com medidas que incentivam o comportamento pró-ambiental do ator social de forma inconsciente. Referências ABRELPE. 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Sendo, portanto, fonte de recursos naturais valiosos, não somente em valor monetário, mas também em termos culturais e científicos, enquadrando- se, então, como um dos principais focos de grandes potências econômicas e países em desenvolvimento (Dudgeon et al., 2006). O conceito de biodiversidade é amplamente variável na literatura científica. O termo diversidade biológica surgiu em 1968, no entanto, tornou-se popular a partir de 1980 (Franco, 2013). Assim, ao falar de biodiversidade, fala-se de toda variedade da vida em todas as suas formas, sendo estas macro ou microscópicas. Apesar de comumente associada apenas em nível de espécies, assim como a percentuais de riqueza ou abundância destas, deve ser interpretada a partir da junção de várias camadas organizacionais, abrangendo níveis como diversidade genética, incluindo entre indivíduos da mesma espécie, população, comunidades ou ecossistemas e, dessa forma, então, é constituída pela dinâmica da conexão entre seus níveis (Colwell, 2009). É de fundamental importância entender que a biodiversidade é responsável por fornecer, através de sua dinâmica e funções ecológicas, a maior parte dos produtos e benefícios entregues à sociedade como um todo, sustentando, inclusive, a vida humana (Dudgeon et al., 2006). No entanto, ao passo que a demanda humana por recursos aumenta, a exploração desenfreada da biodiversidade também aumenta e, com isso, a sua degradação e perda muitas vezes irreversível (Smith, 2011; Uchida et al., 2021). Nesse cenário, a introdução de espécies exóticas invasoras configura-se como sendo a segunda maior causa mundial de perda de biodiversidade, Reflexões em Biologia da Conservação | 37 estando atrás apenas do desmatamento e, em um cenário ainda mais grave, nas unidades de conservação corresponde à principal causa de extinção (Bellard et al., 2022; Silva e Silva-Forsberg, 2015). Assim, evidencia-se a necessidade de observar e discutir a problemática, pois o Brasil, em especial, ainda dispõe de poucas experiências em implantação de políticas de diagnóstico, mitigação de impactos, assim como de controle de espécies invasoras. Sendo estas pautas indispensáveis para a manutenção da biodiversidade de qualquer área, assim como de todos os serviços ecossistêmicos prestados. Causa e efeito: a relação entre espécies exóticas e a biodiversidade Um ecossistema estará sempre sujeito à ocorrência de perturbações, em diferentes frequências e graus, que comumente podem provocar alterações na composição de comunidades (Hobbs; Huenneke, 1992; Malhi et al., 2020). Assim, uma perturbação é um evento que possibilita o surgimento de novas oportunidades e espaços vagos em uma comunidade (Davis et al., 2007) Portanto, entender a importância da perturbação é fundamental para conhecer os níveis em que um ecossistema responderá a distúrbios específicos (resistência e resiliência de um ecossistema) (Cantonati et al., 2020; Mazaris et al., 2019). Nesse contexto, quando uma espécie consegue, de fato, se estabelecer em um novo ambiente e posteriormente aumentar a sua distribuição, ameaçando e comprometendo a diversidade nativa, ela passa a ser uma espécie exótica invasora (Nachtigal, 2011; Anton et al., 2019). No entanto, sua introdução em um ambiente pode ser dar de forma intencional, onde determinada espécie é transportada e solta em um local onde não ocorria naturalmente ou de forma acidental, quando determinada espécie se dispersa em um ambiente não nativo sem ação humana direta (Santos; Calafate, 2018). É necessário ressaltar que uma espécie exótica quando introduzida em um ambiente pode estar associada com outra, como parasitas, podendo assim promover a introdução de outra variável nessa equação problemática, onde as espécies nativas podem ser acometidas por novas doenças e parasitas que originalmente não ocorriam no ambiente nativo (Lapera, 2020). Para entender o processo de invasão de um ecossistema, deve-se destacar que apenas 1% de determinadas espécies exóticas que são introduzidas em 38 | Reflexões em Biologia da Conservação um ambiente, de fato, tornam-se invasoras, pois, durante a tentativa de se estabelecer, estas são eliminadas do local invadido (Williamson; Fitter, 1996; Santos; Calafate, 2018). Fatores como o número de indivíduos liberados no novo ambiente, as características da espécie introduzida e o estado de suscetibilidade do ecossistema são determinantes para definir o sucesso ou fracasso de uma espécie introduzida (Collyer, 2007). Também são importantes suas estratégias de dispersão e reprodução, somente ao ter sucesso em gerar descendentes (férteis) para se expandir no ecossistema invadido é que, de fato, configura-se como espécie exótica invasora (Pernambuco, 2009). As introduções de espécies exóticas em ecossistemas geralmente provêm como principais motivações, fatores econômicos: atividades voltadas para obtenção de lucro com a criação e comercialização dessas espécies, incluindo a criação doméstica de animais de estimação e fins ornamentais; fatores sociais: atividades para subsistência de comunidades; fatores ambientais: atividades de controle de pragas ou bioindicadores (Lockwood et al., 2019; Ennos et al., 2019; Parsons et al., 2020). No entanto, uma vez fixadas em um ecossistema, as espécies exóticas introduzidas indiscriminadamente podem trazer prejuízos irreparáveis, comprometendo o equilíbrio do ecossistema inteiro, a partir da perda de uma única função ecológica na extinção de uma espécie nativa. Em ambientes aquáticos, a presença de espécies exóticas invasoras traz prejuízos graves, que não se limitam apenas à perda de biodiversidade, afetando, também, atividades econômicas e de subsistência, como a pesca e, no caso de espécies incrustantes, pode gerar gastos exorbitantes com a manutenção de turbinas hidroelétricas, onde, em casos mais graves, pode ocasionar uma redução no volume e velocidade do fluxo de água no interior dos sistemas hidráulicos e obstrução de filtros (Souza; Calazans; Silva, 2009; Pucherelli et al., 2018; Nakano; Strayer, 2014). Em ambientes terrestres essa realidade de perdas graves se repete, onde o mercado, a fragmentação constante de habitats para atividades econômicas e o fluxo de pessoas se intensifica aceleradamente, ao passo que o processo de globalização se desenrola no cenário mundial, favorecendo, então, que o processo de introdução de espécies exóticas se agrave no contexto tanto nacional quanto internacional (Fitch et al., 2019; Matos; Pivello, 2009). Atividades como pecuária, aquicultura e agricultura intensiva são exemplos pertinentes nesse cenário globalizado (Eldridge et al., 2018; Lyseng et al., 2018; Gu et al., 2022; Arnold et al., 2020). Reflexões em Biologia da Conservação | 39 Apesar da gravidade do panorama das invasões de espécies exóticas, estas, através do manejo adequado, podem trazer resultados distintos quando introduzidas em um ecossistema que perdeu determinada função ecológica exercida por uma espécie nativa extinta, podendo ser uma alternativa para a recuperação da função visando à restauração do equilíbrio ecossistêmico abalado, como o uso de Sistemas de Aquicultura Recirculantes (RAS) (sistemas fechados de aquicultura que criam uma interface controlada), que vem como alternativa para mitigar os impactos das mudanças climáticas na produção pesqueira (Montoya; Rogers; Memmontt, 2012; Ahmed; Turchini, 2021). Alguns exemplos de espécies exóticas invasoras: invasões e implicações Lissachatina fulica: O caramujo-gigante-africano foi introduzido no Brasil como alternativa para a criação e comercialização de escargot na década de 1980, sem que houvesse qualquer estudo ou autorização do órgão competente. Após o fracasso na comercialização, os animais foram abandonados e soltos no ambiente, ameaçando severamente as espécies nativas de caramujo, pois competem diretamente com esses, além de promoverem a transmissão de doenças devido à atuação como hospedeiro de vermes como Angiostrongylus costaricensis, responsável pela angiostrongilose abdominal, doença que provoca perfuração intestinal (GISP, 2005). Arapaima gigas: O pirarucu, um dos maiores peixes de água doce do mundo, possui uma variedade de caracteristicas que o torna um predador de ponta. É uma espécie onívora de crescimento rápido, que explora bem os componentes de ecossistemas aquáticos. A distribuição natural de A. gigas é nas várzeas das bacias dos rios Solimões-Amazonas, porém, foi introduzido em sistemas aquáticos do Norte, Nordeste, e Sudeste do Brasil, assim como em países como a Bolívia, Indonésia e Índia (Watson et al., 2013; Castello; Stewart, 2010; Doria et al., 2020; Marková et al., 2020; Kumar et al., 2019). Leucaena leucocephala (Lam.): A leucena, originária da América Central e México é uma espécie arbórea introduzida no Brasil com característica de crescimento acelerado, além de grande fixadora de nitrogênio. Em função de ser bastante tolerante à seca, esta serviu como alternativa para alimentação de animais de criação. Esta espécie, no entanto, espalhou- se rapidamente por quase todo o território brasileiro, substituindo a 40 | Reflexões em Biologia da Conservação vegetação nativa onde é inserida, assim, impedindo a sua restruturação, em função de sua dominância. Além de expor o solo à erosão, também pode ser prejudicial para alguns animais, por seus altos níveis do aminoácido mimosina (GIPS, 2005). Oreochromis niloticus: A tilápia-do-nilo, introduzida no Brasil desde o século XX, sendo uma espécie introduzida para fins de comercialização, é altamente agressiva e apresenta percentuais acelerados de reprodução, culminando em altas taxas de predação de espécies nativas. Seu rápido aumento populacional também promove uma competição desleal com as mesmas, portanto, configurando-se como uma grande ameaça para a manutenção de espécies de peixes nativos onde a espécie exótica está inserida (Attayde et al., 2007). Limnoperna fortunei: O mexilhão dourado, espécie nativa da China e do Sul da Ásia, foi transportada para a América do Sul acidentalmente na água de lastro de navios no ano de 1991. A partir disso, alastrou-se rapidamente pelo território sul-americano sendo identificado no Brasil em 1998. Além da competição com espécies nativas, o mexilhão dourado, em função da característica de incrustação, fixa-se em substratos muitas vezes impedindo o funcionamento de bombas e tubulações, e turbinas de hidroelétricas (Pestana, 2010). Roystonea oleraceae: A palmeira-imperial distribui-se por todo o Brasil, compondo praças, jardins, avenidas e museus, sendo facilmente interpretada como uma espécie nativa local, no entanto, foi introduzida no país por volta de 1808, com a chegada da Família Real Portuguesa, sendo então incorporada pela cultura local e perpetuada até a atualidade (Araújo; Silva, 2010). Pterois volitans: O peixe-leão pode se alimentar de uma variedade de presas disponíveis na área invadida, predador generalista é capaz de invadir diversos habitats, incluindo recifes naturais e artificiais, estuários e manguezais. Seu crescimento acelerado é um aspecto que favorece o processo de invasão, assim, causando a extinção local de inúmeros peixes nativos (Muñoz et al., 2011; Hixon et al., 2016; Pusack et al., 2016). Considerações finais Enfrentando o problema: responsabilidade ativa. O Brasil configura-se como um dos países signatários da Convenção sobre Biodiversidade, assim como dispõe de uma estratégia nacional própria, Reflexões em Biologia da Conservação | 41 onde. por meio da resolução CONABIO 07/2018, definindo as diretrizes e decisões da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) aplicadas às instâncias nacionais de governança ambiental. E por meio da Portaria MMA 03/2018, busca evitar, controlar ou erradicar e mitigar impactos provenientes de espécies exóticas invasoras. Seu funcionamento é avaliado anualmente, e em 2024 deverá ser realizada a revisão do primeiro período de implementação, assim como a elaboração de um novo planejamento (Brasil, 2018). No que tange ao cenário internacional, uma das iniciativas de destaque do país assumir duas metas como abordagem para a problemática. A Meta de Aichi 9 (Aichi Biodiversity Targets), com o objetivo de até 2020 identificar espécies invasoras e seus vetores, controlar ou erradicar as espécies consideradas prioritárias, assim como a tomada de medidas de controle de vetores, buscando impedir a introdução e estabelecimento de espécies exóticas (Brasil, 2019). E também a Meta 15.8, dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, buscando implementar até 2020 medidas para evitar a introdução, efetuar o controle ou erradicação e redução dos impactos provenientes de espécies exóticas invasoras (Brasil, 2019). Porém, através dos relatórios lançados por meio da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) é possivel observar que os países signatários desse acordo internacional não conseguiram alcançar totalmente nenhuma das metas propostas. É importante entender que a problemática das invasões biológicas deve ser encarada em diferentes escalas, ou seja, em amplitude internacional, nacional, estadual e municipal, tendo como base a importância do princípio de prevenção e identificação antecipada, podendo facilitar o manejo adequado de espécies invasoras e reduzir seus impactos ao ecossistema ao qual está inserida (Ziller, 2010). A medida preventiva de Análise de Risco (protocolo de perguntas sobre determinada espécie exótica e seu o histórico de invasões em outras áreas e características ecológicas) também se mostra uma poderosa metodologia com o objetivo de prevenir a ocorrência de introdução voluntária de espécies exóticas (Zalba; Ziller, 2007). No entanto, quando se trata da erradicação de uma espécie, também é necessário levar em consideração o contexto ao qual ela se enquadra. Dessa forma, muitas espécies exóticas invasoras, apesar de prejudiciais, estão inseridas em um cenário de geração de renda para comunidades carentes. Portanto, é fundamental considerar tanto aspectos ambientais 42 | Reflexões em Biologia da Conservação quanto socioeconômicos ao se referir à erradicação de um invasor biológico. Assim, é indissociável a relação da participação ativa da sociedade civil e educação ambiental no repasse da importância do equilíbrio ecossistêmico, manutenção da biodiversidade e, por fim, no enfrentamento ativo do problema. Referências AHMED, N.; TURCHINI, G. M. Recirculating aquaculture systems (RAS): Environmental solution and climate change adaptation. Journal of Cleaner Production, v. 297, p. 126604, 2021. ANTON, A. et al. Global ecological impacts of marine exotic species. Nature Ecology & Evolution, v. 3, n. 5, p. 787-800, 2019. ARAÚJO, J. S.; SILVA, Â. M. S. A palmeira imperial: da introdução no Brasil-Colônia às doenças e pragas no século XXI. 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Dentre as atividades que mais causam impactos ambientais no Brasil está a mineração (Silva, 2007), que, embora possua importância socioeconômica, interfere de forma acentuada nos recursos naturais (qualidade da água, solo, alimentos). A mineração está cada vez mais presente nas sociedades modernas, desempenhando um papel importantíssimo nos setores básicos da economia do país, como a geração de novos empregos (Silva, 2007). Entretanto, os efeitos positivos da atividade mineradora parecem não compensar os impactos negativos por ela causados, haja vista que afeta de forma substancial o meio físico, provocando desmatamento, perda de espécies, erosão do solo, contaminação da água, além de afetar a qualidade de vida das populações humanas estabelecidas na área minerada e no seu entorno (Fernandes et al., 2014). Os impactos ambientais associados à mineração estão relacionados a todas fases da exploração mineral, como o uso de explosivos no desmonte da rocha (sobrepressão atmosférica, vibração do terreno e emissão de gases como carbono (CO2) e Metano (CH4)), a abertura da cava (retirada da vegetação, escavações e modificação da paisagem local) e ao transporte e beneficiamento do minério (geração de poeira e ruído) (Bacci et al., 2006; Fernandes et al., 2014). A exploração mineral em larga escala pode afetar de forma drástica a biodiversidade terrestre e aquática, causando a perda de cobertura vegetal (Figura 1), redução ou destruição de habitat, desaparecimento de espécies animais e vegetais (podendo incluir eventuais espécies ameaçadas de extinção) e impactos à saúde causados pela poluição sonora, do ar (doenças respiratórias), da água e do solo (Mechi; Sanches, 2010). 46 | Reflexões em Biologia da Conservação Figura 1. Modificação da paisagem ocasionada pela exploração mineral no estado de São Paulo. Fonte: Mechi e Sanches, 2010. A poluição da água e do solo é uma das consequências mais diretas na biodiversidade local, pois são dois recursos chave para a manutenção do ecossistema (Silva; Andrade, 2017) e, consequentemente, na manutenção dos serviços ecossistêmicos essenciais para o bem-estar humano. A Reflexões em Biologia da Conservação | 47 poluição aquática ocorre devido à liberação de metais pesados que possuem ação tóxica no ecossistema, tais como mercúrio, arsênio e chumbo, que em altas concentrações podem causar uma queda acentuada na biodiversidade e desequilíbrio ecológico na cadeia alimentar (Silva et al., 2004). Além disso, impactos ambientais negativos no solo podem causar alterações sobre a vegetação e microrganismos, resultando em alterações nos serviços ecossistêmicos, como ciclagem de nutrientes e no armazenamento hídrico do lençol freático e, consequentemente, no funcionamento do ecossistema (Silva et al., 2001). Dessa forma, torna-se importante avaliações que abordem os impactos ambientais causados por atividades minerárias ou por qualquer outra atividade industrial, pois questões relacionadas ao meio ambiente têm se tornado uma preocupação crescente, em consequência da diminuição da qualidade de vida e os riscos oferecidos à saúde humana (Martim; Santos, 2013); principalmente para populações dependentes dos recursos da floresta para a sua subsistência e sobrevivência. Medidas mitigadoras dos impactos da mineração Qualquer empreendimento que afete o meio ambiente ou a sociedade deve apresentar medidas para evitar, reduzir e/ou eliminar os impactos ambientais resultantes (Silva; Andrade, 2017). Tais medidas devem ser apresentadas anteriormente às atividades de extração de recursos (Haddway et al., 2019), na fase de avaliação de impacto ambiental (AIA). Os responsáveis por essa avaliação são os profissionais habilitados para analisar os aspectos físicos, biológicos e socioeconômicos do ambiente, como, por exemplo, biólogos, engenheiros e geólogos. Uma medida que vem sendo usada para reduzir a poluição atmosférica e as doenças respiratórias causadas pela poeira gerada em áreas de mineração é o uso de um polímero natural e biodegradável, criado por meio de tecnologia microbiológica, que possibilita alta eficiência na supressão da poeira. O custo do biopolímero é baixo, quando comparado com os outros polímeros disponíveis no mercado, sendo necessário apenas 2 litros para a aplicação em uma área de 1m²; seu efeito dura, em média, de 5 a 6 horas, tendo um intervalo de 7 a 20 dias para a reaplicação. Esse produto já é usado por muitos países além do Brasil, como Chile, Peru e México (Nazareno et al., 2018). No ambiente aquático, a extração do minério gera perturbações ao ecossistema por meio da luminosidade e ruídos, afetando peixes, 48 | Reflexões em Biologia da Conservação invertebrados, animais pelágicos e bentos. Diante disso, os veículos e máquinas usados na mineração devem ser projetados para reduzir esses impactos (Cuvelier et al., 2018). Segundo Martim e Santos (2013), a redução dos impactos ambientais pode ser alcançada adotando algumas medidas, como a implementação de unidades de tratamento de esgoto (evitando assim a contaminação das águas), cortina arbórea (reduzindo a poluição visual), bem como técnicas de biolixiviação ou quaisquer outras menos agressivas, como forma de evitar os impactos de poluição do solo e diminuição da emissão de poluentes. No Brasil, as mineradoras Vale, Samarco Mineração S.A. e Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM) são consideradas como as maiores empresas de exploração mineral. Todas apresentam medidas mitigatórias para a redução dos impactos ambientais, como apresentado na Tabela 1. Tabela 1. Os minerais extraídos e as atividades de mitigação das três maiores mineradoras do Brasil. Mineradora Minerais Extraídos Atividades de mitigação Vale Minério de ferro Disposição de rejeitos em pilhas e em cavas; Adoção da “meta água” para reduzir o uso específico de água; Investimento em máquinas subterrâneas movidas à bateria para reduzir as emissões de gases. Samarco Mineração S.A. Pelotas de minério de ferro Implementação de estruturas de contenção de rejeitos e sistema de bombeamento de água para evitar o carreamento de rejeitos; Sistema de monitoramento hídrico. Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM) Gipsita Reciclagem de resíduos industriais; Uso de irrigação para evitar os particulados no ar (poeira); Presença de correias transportadoras para reduzir o tráfego de caminhões e emissões de gases poluentes como CO2. Reflexões em Biologia da Conservação | 49 Estratégias de recuperação de áreas afetadas por atividades de mineradora Em virtude da destruição de áreas naturais importantes para a biosfera, é necessário o desenvolvimento de estratégias de recuperação, como parte do plano geral de gerenciamento das mineradoras. O aumento da sensibilização da sociedade sobre a conservação da natureza permitiu um crescimento nos números de estudos sobre restauração em áreas degradadas, partindo de diferentes técnicas (Martins et al., 2007). Dentre as técnicas mais utilizadas para a recuperação de áreas degradadas por atividade de mineração, tem-se a revegetação (técnica mais usada nos processos de recuperação), fitorremediação e nucleação (Figura 2A-C). Figura 2. (A) Processo de revegetação em uma área degradada pela mineração na Caatinga (Embrapa, 2019). (B) Técnica de nucleação para áreas degradadas (Martins, 2007). (C) Área com projeto de fitorremediação nos Estados Unidos (Somma, 2018). As mineradoras Vale, Samarco Mineração S. A e Companhia Brasileira de Metalúrgica e Mineração (CBMM), em seus últimos relatórios de sustentabilidade, relataram que a técnica mais usada pra recuperar áreas degradadas pela exploração mineral dessas empresas é o processo de revegetação. Revegetação No Brasil, é obrigatório que todas as empresas de mineração apresentem um Plano de Recuperação de Áreas Degradas (PRAD), documento que preconiza a adoção de procedimentos para estabelecer ou restabelecer a cobertura vegetal nas áreas degradadas, prática conhecida como revegetação (Almeida; Sánchez, 2005). A revegetação consiste no plantio localizado de espécies vegetais no solo, tendo em vista reduzir a ação dos ventos e das chuvas, evitando assim processos erosivos que favorecem a degradação do ambiente (Oliveira et al., 2015). A recuperação de áreas degradadas, baseando-se nos princípios 50 | Reflexões em Biologia da Conservação básicos da revegetação, pode ser realizada utilizando-se diversas espécies vegetais, como leguminosas arbóreas (Acacia auriculiformis A. Cunn, Acacia mangium Wild. e Mimosa caesalpiniifolia Benth.), que atuam em simbiose com fungos micorrízicos e bactérias fixadoras de nitrogênio atmosférico (Nogueira et al., 2012; Costa et al., 2014), auxiliando, assim, na recuperação do solo. Segundo Tordoff (2000), a revegetação em áreas mineradas apresenta uma série de vantagens, tais como: a redução da erosão devido à atuação das raízes ligadas ao substrato e a capacidade de devolver uma grande quantidade de água que percola para a atmosfera por meio de evapotranspiração, reduzindo as concentrações de metais pesados solúveis que atingem os cursos d’água. Lima et al., (2015), em um estudo realizado na Caatinga, mostraram que das 20 espécies de leguminosas arbóreas usadas para a revegetação de áreas degradadas por mineração de Piçarra, apenas sete mostram-se eficazes para a revegetação dessas áreas, dentre as quais estão: Mimosa tenuiflora [Willd.] Poir, Mimosa caesalpiniifolia Benth., Vachellia farnesiana (L.) Wight & Arn., Pseudosamanea guachapele (Kunth) Harms, Caesalpinia férrea Mart. ex Tul. (S), Tabebuia caraíba (Mart.) Bur. e Azadirachta indica A. Juss. Porém, os autores destacaram restrições a duas espécies (P. guachapele e A. indica) que são exóticas ao bioma Caatinga. O uso frequente de espécies arbóreas exóticas pode ocasionar uma invasão biológica local, sendo um dos problemas da revegetação (Boanares; Azevedo, 2014). Fitorremediação A fitorremediação é o processo pelo qual plantas são introduzidas em um ambiente, tendo em vista extrair e remover os contaminantes do solo por meio de suas raízes e folhas e diminuir a sua biodisponibilidade no mesmo (Oliveira et al., 2009; Yan et al., 2020). Plantas denominadas hiperacumuladoras, como os girassóis (Helianthus annuus L.), mostarda- marrom (Brassica juncea L. Czern) e feijão-de-porco (Canavalia ensiformis L. DC) são resistentes a determinados metais pesados e capazes de acumular e transportar tais poluentes (Gratão et al., 2005; Andrade et al., 2009; Oliveira et al., 2009). Essa técnica é muito vantajosa, devido à sua aplicação ocorrer in situ e por apresentar um baixo custo (Oliveira et al., 2015). Há uma série de estratégias de fitorremediação que são usadas nos solos contaminados por metais pesados, incluindo: a) fitovolatização (uso de Reflexões em Biologia da Conservação | 51 plantas para absorver metais pesados do solo logo após liberação na atmosfera como compostos voláteis); b) fitoextração (uso de plantas para extrair/remover metais pesados do solo); c) fitoestabilização (uso de plantas para reduzir a biodisponibilidade de metais pesados no solo); d) fitofiltração (uso de plantas cultivadas hidroponicamente para absorver e adsorver íons de metais pesados de águas subterrâneas e resíduos aquosos) (Marques et al., 2009; Yan et al., 2020). No entanto, de acordo Wong (2003) e Sheoran et al., (2012), a fitorremediação de metais pesados em locais de mineração inclui, especialmente, duas tecnológicas principais: a fitoextraççao e a fitoestabilização. Nucleação A nucleação é compreendida como a capacidade de uma espécie em propiciar melhoria nas qualidades físicas e químicas do ambiente (Filho et al., 2013). Essa técnica é muito usada em processos de restauração, pois possibilita o aumento da biodiversidade local, levando em consideração os estágios de sucessão ecológica, onde os núcleos criados atrairão a diversidade de espécies das áreas circundantes (Reis et al., 2003). No processo de nucleação, criam-se pequenos habitats (núcleos) dentro da área degradada, de forma a induzir uma heterogeneidade ambiental, objetivando a formação de ambientes distintos no espaço e no tempo (Reis et al., 2010). De acordo com Reis (2003), a atividade de restauração por meio da nucleação tende a facilitar o processo sucessional natural, e quanto mais numerosos e diversificados forem os núcleos, mais efetivo será o processo de regeneração da área. Existem seis diferentes técnicas nucleadoras, que normalmente são usadas em programas de restauração, como poleiros artificiais (auxilia no aumento de propágulos no substrato, dispersos por aves de núcleos de matas próximas), plantação em ilhas (consiste na plantação de diferentes espécies de plantas de forma equidistantes em áreas degradadas), grupos de Anderson (plantio de grupos de espécies de árvores-chave, ou seja, aquelas que ocorrem naturalmente na área), transposição de solo não degradado (permite a colonização na área degradada com uma diversidade de micro, meso e macro-organismos, como fungos micorrízicos, bactérias nitrificantes, minhocas, organismos impo